pintura íntima

Bruno Passos está inquieto. Há semanas, uma ideia fixa não para de lhe martelar a cabeça. Ele se levanta abruptamente do ban- quinho de madeira colocado ...

IMPRESSÕES

PINTURA ÍNTIMA EGRESSO D O MERCAD O DE MODA, PINTOR BRUNO PASSOS EMERGE NA CENA DAS ARTES BRASILEIRAS COM REPRESENTAÇÕES FIGURATIVAS CARREGADAS DE DRAMA E POESIA, SOFISTICAÇÃO E TÉCNICA

POR EDUARDO RIBEIRO FOTOS CAMILA SIMIELLI

Na pág. ao lado, “Vermelho” (2016), pintura de 1,5 m x 1,2 m. Nesta pág., o autorretrato do artista “Entre Bugios, Caetanos e Cartolas” (2018), de 40 x 30 cm

Bruno Passos está inquieto. Há semanas, uma ideia fixa não para de lhe martelar a cabeça. Ele se levanta abruptamente do banquinho de madeira colocado ao centro do estúdio para revelar um feroz objetivo. Aos 33 anos, sete deles dedicados à pintura – e, de vez em quando, à escultura –, o artista egresso da moda toma fôlego para iniciar o projeto que espera ser a sua mais monumental obra até aqui: uma tela de proporções gigantes, que possa dar suporte à ambição que lhe vem consumindo dias e noites. “Veio essa pira, sei lá por quê”, diz ele, gesticulando no pequeno quarto que mantém no bairro de Moema, São Paulo. “Vi um dia na minha mente um quadro gigante. E não caberá aqui. Preciso de um pé direito duplo e muito mais recuo, para poder observá-lo de longe”, planeja. A ideia é fechar o estúdio nas próximas semanas, entregar as chaves e migrar para

um lugar apropriado, a fim de que possa se dedicar por pelo menos oito meses a esta única pintura. Será a representação de uma tragédia. Pessoas em desespero. Ao centro, um boi curraleiro pé-duro trará um corpo pendente sob a cabeça. Está nos planos do artista doar a tela para alguma instituição. “Sei que fala alguma coisa sobre a irracionalidade”, divaga o pintor sobre o significado da representação. “Os quadros que tenho feito conversam muito com o momento, sem querer. É um pânico, um barulho, algo irracional. É muito parecido com o que estamos vivendo”, avalia. “Uma pessoa pisa em cima da outra, existe uma força da natureza que estraga tudo”, continua, descrevendo a cena que vislumbra. “Mal vejo a hora de começar a executar.” Basta observar rapidamente os quadros encostados nas paredes do estúdio para ser capturado pela força que emana do seu 67

trabalho, acompanhado (e curtido) no Instagram @brunopassosbr e na vida real por gente tão diversa quanto a apresentadora Sabrina Sato e o filósofo Leandro Karnal, o ator Johnny Massaro, o cantor Nando Reis, o estilista Oskar Metsavaht e o diretor e iluminador teatral Caetano Vilela. “A primeira vez que vi uma exposição do Bruno Passos fiquei intrigado como ele trabalha o realismo em suas obras”, diz o encenador. “Não é simplesmente uma reprodução da realidade, mas uma ‘versão distorcida’ dela, com uma técnica sofisticada e poética”, elogia. “Tem uma presença íntima na expressão de seus retratos, uma linguagem muito particular de rara intensidade”, completa Oskar, fundador e diretor criativo da Osklen. “Ele tem a capacidade de dar ao tradicional figurativismo uma nova dimensão plástica usando um recurso de explorar psicologicamente a personagem e retratá-la de for-

“ FA Z E R U M R E T R AT O É ALGO EX TREMAMENTE D U R O , N Ã O B A S TA FA Z E R UMA BOA PINTURA. É NECESSÁRIO SER ICÔNICO S E M S OA R Ó B V I O. É U MA LINHA MUITO TÊNUE”

A partir do alto, a pintura “Caçando Sonhos em Águas Frias”, que “fala sobre sonhos, sobre as verdades que nos assaltam sempre que estamos sozinhos”; “Sonhos de Cabotagem”, em que trabalha com pretos, brancos e cinzas para dar ritmo à imagem; e uma escultura feita com técnica mista. “Criar uma peça orgânica e fluída, feita de pedra, foi um dos maiores desafios que já me impus”, afirma Na pág. ao lado, George Arias, o primeiro de uma série que o artista dedica a grandes brasileiros vivos. “Fazer um retrato é algo extremamente duro, é necessário ser icônico sem soar óbvio. É uma linha muito tênue”, diz sobre a obra com o boxeador. “Uma pose clássica de boxe soaria genérico, um retrato de rosto não lhe seria digno. Escolhi as costas saltando de carne em direção à luz.”

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ma com que ela não