o homem que se reinventa

mir na rua atrás do Museu de Arte de São. Paulo (Masp). Começou a consumir muito álcool para estancar a dor. “Eu não falava, só andava. Bebia duas ou três ...

06 – cabeça sem teto

texto e fotos: Vanessa Zettler

o homem que se reinventa

Fã de Amy Winehouse, Claudio Bongiovani, de 65 anos de idade, é uma daquelas pessoas de curiosidade aguçada. Leitor assíduo, já iniciou diferentes faculdades: Psicologia, Direito e Jornalismo, mas a que ele terminou foi a de Química, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele trabalhou na área por quase 20 anos, atuando em uma siderúrgica do mesmo estado, depois de ter tido diferentes empregos. Foi linotipista (encarregado da impressão do jornal, com o uso da extinta máquina linotipo) para a Gazeta e também encadernador no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), entre outros trabalhos. Encontrei com Claudio na banquinha que ele monta todos os dias na frente do

cinema Caixa Belas Artes, na movimentada esquina da Rua da Consolação com a Avenida Paulista, em São Paulo. Enquanto conversávamos, a cada 10 minutos era um cliente diferente que passava saudando este simpático senhor, ou era ele mesmo que notava um olhar interessado e partia para a conquista de um potencial novo comprador: “Jovem, já conhece o projeto da Ocas”?”, diz, com voz calma. Mas toda essa popularidade e simpatia com a clientela não foi sempre assim. O vendedor conta que veio para a Organização Civil de Ação Social (OCAS) em um momento muito difícil de sua vida, em que ele, por ter atravessado um trauma muito grande, mal conseguia se comunicar com alguém, e o silêncio imperava em seu dia a dia.

Nascido e criado no bairro da Mooca, viveu a maior parte da vida em São Paulo. Com 30 anos, se mudou para Pitangui, em Minas Gerais, para se casar com Marli, com quem teve dois filhos e uma filha. Nessa época, ainda não tinha terminado nenhuma faculdade e trabalhava em uma siderúrgica. Em certo momento, Claudio recebeu a proposta de que, se entrasse no curso de Química da universidade, teria os estudos financiados. Tornou-se um dos químicos responsáveis pela empresa. Foi o período de maior conforto financeiro, mas não durou para sempre. Durante uma recessão forte, todos os que não eram concursados foram demitidos, inclusive Claudio. Ele encontrou um novo trabalho em São Paulo e se mudou para um quarti-

nho na cidade. Voltava de 15 em 15 dias para visitar a família que havia permanecido em Pitangui. Foi quando a vida dele virou de pernas para o ar. Ele perdeu a mulher, os dois filhos, de 3 e 4 anos, a sogra, o sobrinho, de 7 anos, e o cunhado, todos de uma vez, em um terrível acidente de carro. Claudio estava em São Paulo e sua família havia ido a Goiás para a tradicional Festa do Milho, onde encontraram alguns parentes que moram na região. Na volta, ocorreu a tragédia. Sobreviveu apenas a filha, que não estava no carro, pois havia esticado a viagem para Tocantins com a madrinha. Claudio recebeu a notícia no meio da noite e correu para pegar o primeiro ônibus da manhã para Pitangui, mas mal teve tempo de chegar ao funeral. Voltou a São Paulo desolado e deu de cara com seu apartamento saqueado. “Tinham entrado, roubado e queimado tudo. Aí fiquei desnorteado, saí que nem louco.” Ele, então, se pôs a andar pela cidade e passou a dormir na rua atrás do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Começou a consumir muito álcool para estancar a dor. “Eu não falava, só andava. Bebia duas ou três garrafas de cachaça todo dia. Larguei o trabalho, nem voltei, nem arrumei a papelada. Só fui resolver essas questões burocráticas agora, depois de 15 anos.” Após muitos meses nessa situação, um senhor apareceu lhe oferecendo comida e também um local para tomar banho e cortar o cabelo. “Eu pesava 30 quilos e meu cabelo pesava 60!”, conta. E foi nesse hotel social que ele conheceu as psicólogas Rosangela e Adalaia, com quem, aos poucos, voltou a falar. Foram elas que lhe recomendaram procurar a revista Ocas” para voltar a trabalhar e ter uma renda. O primeiro dia que saiu com dez revistas Ocas” para vender foi um dia difícil. “A cicatriz ainda estava latejando muito forte. Eu não conseguia falar com ninguém. Me sentia culpado. C