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críticas que são feitas a seus últimos trabalhos, achando-os incomunicáveis”: “(. ... Wikipedia, tem-se acesso a vários detalhes de sua vida, prêmios, obras.

REPRODUÇÃO

No poema Autotomia, a polonesa

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HILDA HILST Enfim, o aporte de leitores

Nos 10 anos da morte da escritora, serão lançados livro de cartas e uma biografia, além de estarem em produção dois filmes sobre a autora que queria ser lida em profundidade TEXTO Priscilla Campos

Wislawa Szymborska utiliza o pepinodo-mar (de nome científico Holothuria) como metáfora para dissertar sobre a sobrevivência. O caminho proposto pelos versos de Szymborska é austero e belo: “Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:/ deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,/ salvando-se com a outra metade.// Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,/ em resgate e promessa, no que foi e no que será (...)”. Remanescer, para a polonesa, é então um ato que demanda certa coragem. É preciso entregar-se às tormentas; nos versos de Szymborska, a fuga não aparece como uma solução. Durante todo o poema, ela afirma: o indivíduo, assim como o pepino-do-mar, tem a capacidade de desatar-se em si mesmo. Esse exaustivo ritual parece ter sido executado com frequência por Hilda Hilst, falecida há 10 anos (1930–2004). Detentora de uma “literatura de raça”, como definiu o professor de Teoria Literária da Unicamp, Alcir Pécora, a escritora, dramaturga e poeta paulista deixou um legado imenso, ainda em processo de descoberta por leitores e críticos. No decorrer de sua trajetória literária, e mesmo após a sua morte, entrevistas e resenhas debateram com fervor a suposta incomunicabilidade presente na escrita de Hilda. Em uma delas, concedida ao jornalista Delmiro Gonçalves e veiculada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 1975, a escritora é taxativa ao ser questionada sobre “certas críticas que são feitas a seus últimos trabalhos, achando-os incomunicáveis”: “(...) Não compreendo isso; muita gente fala da dificuldade de entendimento do meu trabalho em prosa. Mas tudo é difícil, não é? Há uma personagem minha que diz: ‘Olha, tudo é difícil. Arrota agora, vê, você não conseguiu. Coça o meio das costas, vê, você não conseguiu; é difícil, não? Andar de lado e sentado é dificílimo, não?’. Portanto, se você escreve tentando de certa forma ‘rebatizar’ a palavra, pensar tua própria carne longe das referências é também muito difícil, não acha? Quero ser lida em profundidade e não como distração (…).” Até hoje, a obra hilstiana é tida como difícil e com alto potencial de

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IMAGENS: DIVULGAÇÃO

1-2 CASA DO SOL Local onde a escritora viveu em Campinas (SP) é sede do Instituto Hilda Hilst, no qual ocorrem encontros e residências artísticas

afastar os leitores “menos dedicados”. É curioso observar como essa ideia parece ter ultrapassado qualquer âmbito jornalístico e acadêmico. Na página dedicada à escritora no site Wikipedia, tem-se acesso a vários detalhes de sua vida, prêmios, obras divididas por gêneros e datas... Porém a curiosidade de quem estiver procurando por uma definição, conceito, ou até mesmo adjetivos para essa literatura com ares de indecifrável, não será saciada, pois o tópico Estilo literário está, segundo o site, em construção. Mesmo com essa deliberada falta de clareza na esfera escritor-leitor, Hilda está sendo cada vez mais disseminada e lida, principalmente pelos mais jovens. A estatística foi observada pelo presidente do Instituto Hilda Hilst (IHH) e também herdeiro dos direitos autorais da escritora, Daniel Fuentes, que teve como base a fanpage da fundação no Facebook, hoje com mais de 21 mil curtidas. “Quase 50% do pessoal que curte nossa página tem menos de 30 anos. Hilda tornou-se mais popular até entre adolescentes. Adaptações para o teatro vêm ajudando no processo de divulgação de sua obra também. Na minha opinião, tudo isso, somado à ampla distribuição que os livros têm, fazem de Hilda hoje uma autora em franca popularização. Que outro autor brasileiro teve, no último ano, mais presença na mídia?” Após a publicação de 2